João

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segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Divisa Territorial Glória-Rodelas / Tuxás-Pankararés (artigo)









Apoiado em divulgação recente do Ozildo Alves blog, escrevi e publiquei recentemente o artigo RODELAS NA BERLINDA. O trabalho adverte sobre uma pretendida revisão na divisão entre os municípios de Gloria e Rodelas com vistas à recuperação de terras do grupo indígena Pankararés de Gloria. A divisão hoje contestada, com esta a lei são do ano de 1962 - cinquenta e um anos no passado.

Estudioso da matéria que me rendeu o livro RODELAS, CURRALEIROS, ÍNDIOS E MISSIONARIOS, editado em 1996, tomamos aqui e agora, a iniciativa de advertir sobre o equívoco da pretendida revisão que fala expressamente de prejuízo em terras dos índios Pankararés. Ora, na crônica da era da colonização dos aventureiros portugueses não há um só registro de índios dos nomes: Nação Tuxá de Rodelas ou grupo indígenas Pankararés de Gloria. Como aldeias vizinhas, existiam então as denominadas Corumbabá, no local onde hoje é a Nação Tuxá, a Sorobabé no atual município de Rodelas e a Aldeia de Caruru em Glória, que imagino ser a agora denominada PANKARARÉ. Em razão da cobiça e do furto dos aventureiros dos Ávilas, os índios Carurus foram expulsos de seu chão. Os missionários da época eram os jesuítas. Agregaram a aldeia de Caruru à de Sorobabé.

O rei interveio e mandou distribuir terras à margem do rio, no lado baiano, aos nativos. Falemos das nossas, que estão entre Rodelas e Glória. Mandava demarcar uma légua de terra para a aldeia de Rodelas, já assim chamada a antiga Corumbabá, uma légua de terra para a aldeia de Sorobabé - A aldeia de Caruru não fora contemplada. Daí a iniciativa dos missionários: agregar para beneficiar. Aconteceu que o mandado do rei não foi cumprido e a distribuição da terra ficou em ser - o índio sempre no pau ficou a ver navios. Os de Rodelas, os do Sorobabé, os de Caruru. Daí que os índios Carurus retornam a se acomodar como Deus quis, no Curral dos Bois ou se dispersaram.

Vejo neste momento que a pretendida revisão não tem em vista oferecer terras aos índios Pankararés, que já se encontram reassentados. A pretensão parece-me, é outra: ampliar a área de Gloria em detrimento de Rodelas. Esta lembrança me recorda as palavras de Pedro Calmon em a A CASA DA TORRE, referindo-se ao padre Pereira, grande matador de índios: “A fronteira dos seus domínios estava na pata do seu cavalo”.    

Vejo só agora que os Pankararés já estão assentados em terra própria.

Leia-se o texto a seguir, editado na Wikipédia:

   


Wikinativa/Pancararé

Da Wikiversidade

Responsável: Caio Vinicius Marques Teixeira


Os Pancararés (ou Pankararés), são um grupo indígena que habita o Norte da Estação Ecológica do Raso da Catarina, nos limites dos municípios brasileiros de Nova Glória e Glória, ambos no estado da Bahia, mais precisamente nas Áreas Indígenas Brejo do Burgo e Pankararé.


Localização

A comunidade Pancararé tem como origem a região de Curral dos Bois, no municipio de Glória, a chamada Glória Velha. Atualmente, se localizam no município de Glória/BA, fazendo limite com a cidade de Paulo Afonso/BA. O território Indígena tem aproximadamente 49 mil hectares de área, sendo dividido na parte do Brejo e a Reserva. Toda a área indígena já está homologada pela União. A comunidade Pancararé é composta pelas aldeias de Brejo, Chico, Serrota, Ponta d'Água, Poço, Caraíba e Cerquinha. Esta última aldeia é uma comunidade indígena, mas não está dentro da demarcação, devido a acordos governamentais. 


História

Há poucos relatos e documentos sobre a origem ou histórias de períodos muito antigos dos índios Pancararé (Pankararé). Isso é uma consequência da escassez de registros sobre índios na região do São Francisco do século XVI ao XIX. Os registros falam que quase toda a região do Vale do São Francisco era ocupada por índios Cariri, mas esta denominação é aplicada a tantas tribos que quase nada significa.
Os primeiros registros sobre a origem dos Pancararés datam de 1705, quando portugueses chefiados pela família D'Ávila criam um ponto de apoio para a expansão agro-pastoril, após o estabelecimento de uma missão religiosa. Muitos dos índios foram reduzidos pelas juntas e vieram a se estabelecer no aldeamento chamado Curral dos Bois, até então nas listagens de grupos indígenas do São Francisco, nunca foram mencionadas a denominação Pankararé, apenas “índios de curral dos bois”.
No século XIX, mediante a decisão Imperial de incorporar terras indígenas de grupos que já não viviam aldeados, mas ligeiramente misturados a civilização, muitas das tribos indígenas foram consideradas extintas sob vergonhosa exploração e tomada de suas terras. Nessa época, já com os aldeamentos em decadência, os índios do Curral dos Bois se espalharam pelos seus arredores, buscando áreas de refugio como brejos ou altos de serra próximas, como os Pankararé do Brejo do Burgo. Outros, seguiram em direção a Tacaratu, onde foram aldeados por padres oratorianos, este povoado, posteriormente chamado de Brejo dos Padres, concentrou uma população indígena denominada Pankararu. A frequente referencia aos Pankararus reforça o parentesco apontado pela história oral dos Pankararé.
Em 1910, é criado o Serviço de Proteção aos Índios. Em 1952, os Pankararé são referidos como “um grupozinho de sobreviventes índios que não estão sob jurisdição do S.P.I.”, com população estimada de 225 indivíduos. Superficialmente seriam indistintos das povoações brasileiras presentes no local, a não ser por praticas culturais como o Toré eu Praiá..
Durante todo esse tempo, esquecidos e renegados pela sociedade nacional, os Pankararé tiveram suas terras tomadas pelos posseiros da região, gerando grandes conflitos. Nessa época, muitos Pankararé tornaram-se vaqueiros, meeiros e trabalhos, como alternativa para a complementação de sua renda familiar.
Na década de 50, toda região foi abalada pela implantação do canteiro de obras da usina hidrelétrica de Paulo Afonso. A presença de uma grande empresa estatal, como a CHESF, em Paulo Afonso, provocou o surgimento de um centro urbano de grandes proporções, produzindo boas alterações no quadro socioeconômico e demográfico da região. A partir da grande seca de 1955, iniciam-se as migrações para São Paulo, onde muitos Pankararé, geralmente do sexo masculino empregam-se na construção civil. Ainda nessa época, os posseiros avançam suas perseguições, ao sentirem-se ameaçados pela noticia da expulsão de posseiros da área indígena Pankararu (em Brejo dos Padres), os não-índios sentem-se ameaçados pelo poder potencial que representariam os Pankararé.
O contato com os Pankararu, que ocorria apenas de modo esporádico, intensifica-se com os conflitos por posse de terra. Através da influência do contato com os Pankararu, são remotadas as práticas rituais tradicionais, ao mesmo tempo que se retoma uma nova organização politica: a figura do cacique. Após décadas de conflitos e reivindicação pelo reconhecimento oficial da FUNAI e a demarcação de terras indígenas, os Pankararé recebem o reconhecimento apenas em 1982 e a reserva indígena é criada bem mais tarde em 1992, passando por processos de homologação até hoje.


Língua

O idioma predominante na tribo dos Pancararé é o Português, em função da imposição da língua no período colonial. Apenas alguns antigos conservam pequenos resquícios do idioma materno.

Aspectos Culturais

Poucos costumes originais da tribo Pancararé se mantiveram com o decorrer do tempo, os poucos costumes presentes são decorrentes do contato recente com os Pankararus, que permitiu resgatar costumes tradicionais como o Toré, um ritual em que há uma comunicação espiritual dos indígenas com seus ancestrais e o Praiá, outro ritual muito predominante entre tribos da região Nordeste.


Medicina tradicional

Em 2006, Miguel Colaço realizou um estudo sobre o a importância cultural de plantas para os índios Pankararé do Brejo do Burgo. Nesse estudo os indígenas destacaram o uso medicinal de algumas espéces de plantas: mastruz (Chenopodium ambrosioides L.), pau-de-teiú (Não identificado), quixabeira (Bumelia sartorum Mart.), ameixa (Ximenia americana L.), aroeira (Myracroduon urundeuva), maria-mole (Guapira sp.) e pau-chumbo (Balfourodendron molle).


Situação territorial

O território do Brejo do Burgo encontra-se atualmente em fase de homologação, mas foi oficialmente declarada em 1992. Possui uma área de 17.924 ha localizada nos limites da reserva ambiental do Raso da Catarina entre os municípios de Paulo Afonso e Nova Glória na Bahia”.




Tomo conhecimento há pouco de que o projeto de nova divisão territorial Glória, Rodelas, Macururé gera-se em um órgão do governo que projeta dividir o caatingal dos três. Arranca metade das caatingas de Rodelas, parte para Macururé, parte para Glória. Vi rapidamente o mapa projetado. São os projetos dos técnicos de gabinete que nunca saíram de sua sala e se sugestionam com a informação de meia dúzia de interesseiros e ou amigos que talvez busquem na divisão um interesse pessoal. Isso seria matéria, imagino, para um blebiscito. Porque eventualmente um sítio depende do apoio de um carro-pipa de Macururé ou de Glória que fica mais próximo do que a sede do seu município? Isso todos nós fizemos em todos os tempos e chama-se prestação de serviço público. Ainda hoje os municípios de Chorrochó, Macurururé, Abaré e Rodelas dependem em matéria de ensino superior, de Pernambuco que lhes fica mais próximo de que, por exemplo, Paulo Afonso, considerada a desgraça que são nossas estradinhas de barro. Até há pouco tempo dependiam de Pernambuco para ensino ginasial e segundo grau. Nunca fomos rejeitados. Têm razão os municípios do alto São Francisco que pretendem emancipar-se da Bahia, porque a capital está muito longe. Melhor que eles pensem nisso. Porque foram técnicos dessa categoria que esfacelaram a população de Glória e Rodelas com as barragens de Moxotó e Itaparica.

Eu era prefeito de Rodelas quando se projetava a barragem de Moxotó. Somamo-nos eu, Manoel Moura, meu antecessor na municipalidade de Rodelas, e Adauto Pereira um grande moço que liderava Glória e Paulo Afonso, o qual a morte levou tão cedo, e fizemos uma pequena barulheira. Conseguimos que o governo interferisse junto a CHESF para criar uma comissão de homens que conhecessem a região e tivessem informações objetivas a oferecer no sentido de que se recolocasse a população a ser atingida pela barragem na região utilizando as áreas da beira lago e proximidades. Fomos nós três que compusemos a comissão. A CHESF praticamente não atendeu a um item da sugestão.

Veio a Barragem de Itaparica. Eu já afastado das posições escrevi três cartas ao presidente da CHESF. Em um desta lembrei que fizesse os técnicos saírem da beira-rio e encontrariam espaço para lotar todos os prejudicados com a barragem. Cheguei a oferecer-me para ir pessoalmente com estes e mostrar-lhes as áreas - não era um desocupado nem irresponsável, exercia o cargo de Auditor Fiscal da Receita Federal, o qual só se alcançava como ainda hoje o é, mediante concurso público de alto nível - não tive um retorno. Publiquei as missivas em anexos no livro NO CORRER DO TEMPO – MEMÓRIAS. E lá se foi parte de Rodelas

para longas distâncias como Ibotirama, por exemplo, onde alocaram parte dos nossos índios Tuxás.

E que mais dizer, senhores, e que mais dizer? Lembrar aos técnicos que ao invés de pesquisar a Caatinga via fotografias aéreas, sugerissem ao governo, federal e estadual, que pusessem suas máquinas a perfurar o solo desses caatingais mapeados, a trazer a água que está no subsolo, mais raso, mais fundo. Iríamos fazer o deserto do Raso da Catarina em Oasis que supra as cidades de alimento. O chão é o chão, senhores, de onde nascemos, aonde vivemos e para onde iremos ao final da vida corporal. Amai o chão beneficiai o chão e dele nos sirvamos, antes de pensar em rateá-lo em pedacinhos para gozo e bem de alguns ou só para mostrar que os técnicos trabalham. A Assembléia Legislativa aprova leis, o governo as sanciona.

João Justiniano da Fonseca

Rodelas na Berlinda (artigo)



                 





Em 1962 criam-se os municípios de Rodelas e Macururé, desmembrados do velho Município de Glória, antigo Curral dos Bois nascido com a colonização do Velho Chico pelos Ávilas. Estes ganham como brinde de amizade, porque eram os nobres descentes do velho Garcia D’Ávila, uma sesmaria que tinha como base a primeira cachoeira, que se denominaria logo mais de Itaparica, daí descendo até onde houvesse povoação (povoação portuguesa, entendamos) e isto vinha dar-se à foz do Rio Xingó. Subindo rio acima a partir da cachoeira até a última aldeia dos Caririguaçu, onde era então a foz do Rio Salitre. Entendido os dois lados do rio e as ilhas. Era um presente de pai para filho. Não é sem razão que alguns dos cronistas do passado aos quais, quinhentos anos depois me incorporo, alvitraram que o criado Garcia D’Ávila não era apenas criado, mas filho do Tomé de Sousa (Há outras razões para o juízo). Nunca se falou dos ascendestes deste Garcia.

Antes da concessão da sesmaria, Moréia, descendente de Caramuru/Catarina Paraguaçu recebera autorização do representante da coroa para pesquisar ouro entre Geremoabo e Jacobina, subindo até o Rio Salitre. Moréia foi bisavô de Francisco Dias de Ávila, a cujos descendes fora concedida a sesmaria de Itaparica. Então aí se emendavam as duas concessões e tudo viria a pertencer aos Ávilas a partir do segundo García D’Ávila, bisneto do primeiro. Era o Sertão de Rodelas ampliando-se. Autorizada a “guerra justa” pelos representes da coroa para matar índios e tomar-lhes as terras veio o sangue derramado do Sobradinho até Remanso, rio acima, Piauí afora pelos caatingais até alcançar terras do Rio Grade do Norte. Não era o roubo apenas, era uma barbaridade. Os índios Rodelas, acompanhados pelo padre Nantes guerrearam seus irmãos. E foram tão valentes, tão famosos, se fizeram que por muito tempo essa área se denominou sertão de Rodelas.

O sertão do São Francisco, salvo vários interregnos sempre foi castigado. Vem agora, cerca de quatrocentos anos depois de iniciada ali a catequização e a chamada colonização, pau sobre um dos mais pobres municípios da Bahia – Rodelas. Querem como desculpas de reduzir-se o prejuízo territorial do município de Glória, que ficou realmente diminuto em extensão territorial, sacrificar Rodelas.  Não é por aí! Não é por aí, chamados para opinião ou decisão todos os municípios do Alto Nordeste São Franciscanos da Bahia, todos os prefeitos da Bahia inteira, a Assembléia Legislativa e o Executivo Estadual, não é por ai que se resolve esse diminuto problema. Não há erro nenhum na divisão territorial Rodelas - Glória, nem Glória - Macururé. A divisa dos dois novos municípios ficou exatamente onde era a divisa dos distritos. Se a Justiça for ouvida não dirá mais do que isto e a atual divisão ficará intata. Querem ver? Tomem este  caminho.

O bicho começou com o nascimento e a emancipação de Paulo Afonso. Paulo Afonso não era mais do mato à beira da cachoeira de Itaparica, jurisdicionado pelo município de Gloria, incluído no seu primeiro distrito. Era pertinho, pertinho da sede. A povoação estava do outro lado do rio em Delmiro Gouveia (PE), parece que anteriormente chamada Jatobá. Ao construírem as turbinas, o trabalho estava mais próximo da Bahia e aqui se fixaram os trabalhadores ou cossacos, como se diga. Não havia moradas. Não sei se havia alguma casa de fazenda. O certo é que se iniciou a povoação de operários, em barracos construídos com sacos vazios de cimento – laterais e cobertura. O cimento usado na obra era o Poti. E de Poti chamou-se a povoação – Vila Poti. Veio o soldado e precisou-se construir um quartel e a cadeia. Veio a professora e com esta a escola. Logo mais o arrecadador e a coletoria. O comércio e a loja, o armazém e a bodega, a farmácia.  A povoação ia crescendo sem que se percebesse. Em pouco estavam o juiz e o cartório. Ficou grande a povoação, sempre maior. Não havia como não se desdobrasse do velho município. Deu-se-lhe o nome de Paulo Afonso e fixou-se a divisa onde melhor pareceu aos líderes de então. Era muito perto e Glória ficou pequeninho. Talvez se pudesse estender para o centro no sentido de Geremoabo. Pegaria uma parte do Raso da Catarina, em cujo futuro, eu pessoalmente faço muita fé. A minha mente, sempre trabalhando o amanhã, vê a água do Tocantins lançada para as cabeceiras do Rio São Francisco e daí descendo a molhar o Nordeste intero até o Rio Grande do Norte. Vê a água subindo das entranhas da terra no Raso da Catarina para transformar em Oasis o deserto.

Pensem senhores administradores políticos, neste momento em ampliar Glória para o alto, para o Raso da Catarina e ponham força conjunta para que o Governo Federal leve suas máquina para perfurar o solo. Eu nasci ouvindo que o trabalho engrandece e que o sucesso é dos que pensam alto. Não diminuam um para crescer outro. Busquem novo espaço. Sejamos grandes de mente e espírito.

Permito-me, de logo apresentar a lei que cria o município e indicando suas limitações:

    MUNICÍPIO DE RODELAS:

“Lei n. 1768 de 30 de julho de 1962. Cria o Município de Rodelas, desmembrado do de Glória. O Presidente do Tribunal de Justiça no exercício do Cargo de Governador do Estado da Bahia, faço saber que a Assembléia Legislativa decreta e eu sanciono a seguinte Lei: Artigo 1º - Fica criado o Município de Rodelas, desmembrado do de Glória, com os seguintes limites:

COM O MUNICÍPIO DE MACURURÉ: Começa no marco no lugar Tamanduá, daí em reta para o marco no lugar Salgado do Melão; daí em reta ao ponto mais alto da Serra da Tigela e finalmente em reta à nascente do Riacho do Mulato.

COM O MUNICÍPIO DE CHORROCHÓ: Começa na nascente do rio do Mulato, desce por esse até a sua foz no rio São Francisco.

COM O ESTADO DE PERNAMBUCO: Começa na foz do rio do Mulato no rio São Francisco e pelo talvegue deste até a foz do riacho Itaquatiara  ou Malhada do Sal.

COM O MUNICÍPIO DE GLÓRIA: Começa no rio São Francisco na foz do riacho Itaquatiara ou Malhada do Sal, sobe por este até sua nascente; daí em reta ao marco no lugar Caraíba à margem do riacho do Tonã.

COM O MUNICÍPIO DE PAULO AFONSO: Começa no marco no lugar Caraíba, à margem do riacho do Tonã; daí em reta de direção Sul, até encontrar a reta tirada da nascente do riacho Baixa do Angico, para o lugar Tamanduá.

COM O MUNICÍPIO DE GEREMOABO: Começa no marco de encontro da reta de direção Sul, tirada do marco no lugar Caraíba, à margem do riacho do Tonã, com a reta tirada da nascente do riacho da Baixa do Angico, para o lugar Tamanduá, segue por esta reta até o marco no lugar Tamanduá.

Artigo 2º - O Município de Rodelas será constituído de um único distrito: Rodelas (sede).

Artigo 3º - A eleição para prefeito e vereadores do Município de Rodelas será realizada a 7 de outubro de 1962 e a instalação do município e posse dos eleitos, efetuar-se-á a 7 de abril de 1963, ficando seu território até lá, sob a administração do Município de Glória.

Artigo 4º - O Município de Glória fica obrigado a aplicar no atual distrito de Rodelas, 70% da renda nele arrecada, até sua definitiva emancipação.

Artigo 5º - O Município de Rodelas responderá por parte da dívida do Município de Glória contraída até a data da publicação desta Lei e a sua avaliação será feita em Juízo Arbitral, na forma do Código do Processo Civil, salvo acordo homologado pelas respectivas Câmaras Municipais.

Parágrafo único - Na avaliação prevista neste artigo levar-se-á em conta, a superfície e o valor do território desmembrado, bem como a média da renda municipal nele arrecada no último triênio.

Artigo 6º - Até que tenha legislação própria, vigorará no novo município a legislação do Município de Glória, salvo a Lei Orçamentária, que será decretada por ato do Prefeito dentro de quinze dias da instalação do Município e mediante proposta do Departamento das Municipalidades.

Artigo 7º - Os funcionários com mais de dois anos de exercício no território de que foi constituído o novo município, terão neste assegurados os seus direitos.

Artigo 8º - Os próprios municípios situados no território desmembrado passarão, independentemente de indenização, a propriedade do Município ora criado.

Artigo 9º - Os casos omissos nesta Lei serão regulados pela Lei n. 140 de 22 de dezembro de 1948 (Lei Orgânica dos Municípios).

Artigo 10º - Revogam-se as disposições em contrário

Palácio do Governo do Estado da Bahia, em 30 de julho de 1962. Adalício Nogueira, Ademar Martinelli Braga (publicado no Diário Oficial de 31/07/62”.

Esta lei é de 1962. Só agora mais de 50 anos depois se abre um debate de contestação. Parece esquisito. Não tenho informação sobre a localização das divisas propostas para a redução do município de Rodelas. Conforme as conheça e conforme eventual contestação a este texto abordarei a matéria sobre os índios Tuxá e Sorobabé (Rodelas), Pankararé (Gloria).



A matéria é longa. Trabalho-a no livro RODELAS, CURRALEIROS, ÍNDIOS E MISSIONÁRIOS, cuja primeira edição o leitor encontrará neste blog . Idealizo uma segunda edição já iniciada.

Não sou um ancião aos 93 anos de idade, sou um homem de trabalho. 









João Justiniano da Fonseca - Salvador, 07-10-2013.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Livros Impressos



 Aqui você conhecerá toda a minha obra já publicada e ler alguma coisa sobre cada um deles:








Safiras e Outros Poemas - Poesia
Edição  - Falângola Belém –PA - 1960



          Primeira publicação de João Justiniano da Fonseca em livro.  Safiras e Outros Poemas foi editado em 1960, pela editora Falangola, em Belém, Pará, onde o autor residia então.


          Alguns poemas do livro:


IMPOSSÍVEL

Passaste em minha vida – vaporosa,
leve, impossível como a nuvem passa.
A luz do teu olhar era a ditosa,
vaga esperança que o tormento embaça.

Rias, cantavas, rias desdenhosa,
eu, lentamente, ia sorvendo a taça
de uma ilusão, sutil e caprichosa,
a rir contigo, em tudo em tudo achando graça.

Nada no mundo além de nós havia.
Doce e feliz a vida nos sorria.
Té que paramos. Onde? Qual o porto?

Nem vimos o impossível nos bradando...
Despertamos chorando, apenas quando
meu coração era o de um vivo morto.




IMPULSOS

Olha-me ainda com esse olhar de fogo,
ouve meu rogo, ouve meu canto langue.
Deixa que eu tome a seiva dessa vida,
mulher querida, em transfusão de sangue.

Ó sê propícia minha doce amada,
não negues nada ao teu poeta amante.
Do amor sigamos esse impulso forte,
inda que a morte envolva-nos num instante.

O teu segredo de mulher supina,
corpo de Vênus, alma de menina,
amiga, fala ao meu ouvido, fala.

E com o teu beijo, sensação divina,
vem ser meu estro, o coração me embala!
Dar-te-ei mil versos de topázio e opala...


João Justiniano da Fonseca





 
Brados do Sertão  
1ª edição - Imprensa Oficial da Bahia/autor - 1963 | 2ª edição - Edição do Autor - 1974



...É bem um brado de revolta, a merecer ressonâncias na acústica administrativa, o livro de versos de Joao Justiniano da Fonseca, flagrando as angústias das regioes nordestinas.

Se, de fato, a linguagem metrificada ou rítmica deve ser portadora de mensagens, o autor de BRADOS DO SERTAO, atingiu de cheio seu objetivo, revelando a seus coevos e as geraçoes despontantes as grandes justiças sociais que desajustam as populaçoes sertenejas, sobretudo o Nordeste.

Sem preocupaçao de escolas literárias, mas submisso a rítmos específicos a transmissao emocional da idéia. BRADOS DO SERTAO apresenta-nos  um punhado de versos polimétricos, vividos e sentidos no ambiente agreste das regioes esquecidas pelos poderes constituídos.

Em suas páginas, nota-se a intençao romântica do autor, centralizada na pessoa de Flora, integrando uma família de retirantes, na esperança de encontrar em S. Paulo a Terra da Promissao.

Na realidade, porém, BRADOS DO SERTAO é mais um libelo, do que um poema romântico, tendendo mais para a epopéia do que para a poesia lírica.

Maneiras personalíssimas de sentir a natureza telúrica e de descrever as causas do exodo de sua gente.

A ordem a que se impôs, na realizaçao do pensamento, e uma constante de sua personalidade literária e como tal deve ser aceita.

A seu modo, emitiu uma grande mensagem de reivindicaçoes humanas, para sua terra e seu povo.

E ninguém lhe poderá negar esse merecimento.


Flávio de Paula
 









 
Sonhos de João - Poesia
Edição do Autor - 1974 
  


          Eis de volta ao público o poeta João Justiniano da Fonseca, trazendo mais um de seus brilhantes trabalhos que há de ser, sem dúvida, uma outra parcela de valor destinada a aumentar e enriquecer o seu já notável agregado de sucessos.
          "Sonhos de João", título que ele dá à reunião de versos com que brinda a poética baiana, neste alvorecer de 1974, é bem uma comprovação de que João não é mais um iniciante  que precise de recomendações e de tolerância, seu nome foi guindado à altura dos grandes poetas.
          Neste livro, há sempre a alma do poeta, às vezes, a alma do leitor. Eu o dedico a você, que gosta de ler poesia. Leve-o, leia ... E decore um poema para as horas do tédio, para as horas de amor. - Para as horas de vida espiritual.


A. de Carvalho Melo






Luiz Rogério de Souza – Educador Emérito - Biografia e Poesia
Edição Mensageiro da Fé/Comissão de Promoção da Barra – Bahia - 1976



    
 O livrote Luiz Rogério de Souza - Educador emérito, nasceu com o sentido de homenagem da UBT (União Brasileira de Trovadores) de Salvador e da Comissão de Promoção da Barra, quando ele comemorava os seus setenta anos de vida e bons serviços prestados a comunidade baiana. Coube a mim, por escolha dos pares, redigir o texto. E o fiz com muita honra e amor.

     Luiz Rogério, ao lado de ter sido um grande homem, que se destacou na profissão, como médico e mais como político e educador, era um extraordinário amigo. Sabia amar e respeitar as pessoas, distinguir os amigos com afeto e estima.

     Constitui-se o livro, de uma biografia resumo e uma coroa de sonetilhos. O tempo foi muito curto para a pesquisa, que havia de ser feita sem que ele o soubesse. Informações rápidas de uma de suas irmãs, a Delamor.
Valeu como homenagem.






I PARTE - EDUCADOR EMÉRITO.



1 - Origem.


     "Filho do doutor Augusto Celestino de Souza e D. Adelaide Bloxham de Souza, nasceu Luiz Rogério de Souza em Salvador, a 8 de agosto de 1906..." "Casado com D. Maria Amélia Galvão de Souza....". "Seu pai, Augusto Celestino de Souza, diplomado pela Faculdade de Direito da Bahia, concluiu o curso jurídico em 1901...".


2 - O estudante.

     "Vindo de Esplanada em 1918, por morte do pai, trazia Luiz Rogério o curso ginasial iniciado. Ali concluía o primário e ingressara no ginásio com os maristas. Em Salvador concluiu o ginásio ainda nos Maristas (Colégio Nossa Senhora da Vitória). Entra para os Preparatórios no Ginásio da Bahia em 1919, aos 13 anos, tirando nota 9, a mais alta da classe, em português. Tão grande é a façanha para os seus 13 anos e ato querido é ele entre os colegas, que estes, empolgados, festejam-lhe o brilho carregando-o nos braços. Conclui o Preparatório em 1921. Em 1922, aos 16 anos, é aprovado no Vestibular da Faculdade de Medicina da Bahia....".


3 - O Médico.

     "Médico em 1927, mal completados os 21 anos de idade, partia Luiz Rogério de Souza, logo a seguir, para o exercício da profissão. Em janeiro de 1928 seria nomeado, em caráter interino, Inspetor Sanitário em Salvador, e em abril designado para realizar medidas profiláticas contra a peste bubônica em Salvador, Alagoinhas e Serrinha, indonessa missão até setembro.....".



II - SEGUNDA PARTE - SINONÍMIAS

I

Abaixo de Deus - o médico,
que o médico é quase um santo.
Pelo clínico e ortopédico
é a nossa fé e nosso espanto.

Ele é sempre o enciclopédico
que lê na agente, e El tanto,
e com tal ciência de Védico,
que nos cria medo e espanto.
 
Mas, há outra ciência enorme,
face a qual ainda é informe
essa que ao médico ensina:
 
É o Saber. Sua grandeza
entre Deus e a natureza,
vale mais que a medicina.



VII
 
Não sei se fez grande cousa
quem contemplou tão somente.
Quem, sendo um simples raposa,
enricou explorando a gente.

Há uma tristeza de lousa
na vida de um displicente.
naquele que só repousa,
não planta e aduba a semente.
 
Quem não abraça o vizinho,
não dá pão ao pobrezinho
nem ama a irmã criatura,
 
não se avizinha de Deus,
não cria, nos gestos seus,
austeridade e ternura!



VIII 
 
Austeridade e ternura
se somam em qualidade
pela dureza da jade
e o mel de abelha em doçura.
 
Cantam paz na tessitura,
unem respeito e lealdade,
equilíbrio e austeridade...
Chamam Deus na envergadura!
 
Por ternura e austeridade,
entendo um pai na bondade,
entendo Deus no mistério.
 
Entendo um riso de frade,
que absolvendo a maldade,
é igual a Luiz Rogério.


João Justiniano da Fonseca






Cacimba Seca - Romance
Edição Contemp Editora  – 1985



     Integrante de uma Comissão de Seleção de Textos, li pela primeira vez o romance Cacimba Seca, de João Justiniano da Fonseca, nessa condição.

     Relido seu romance, com o possível distanciamento, mantém-se a impressão inicial: se não prescinde da substância social, ganha em emoção e poesia pela contensão da linguagem, como se verifica na abertura do livro: "o homem - o pai - lá embaixo na cacimba, puxando água, lata a lata. E a água no chora-chora, minando devagarzinho", fixando o homem diante da seca, sem que o desespero lhe sirva de moldura.

     Sem pretender uma ficção histórica, mas antes acompanhar a trajetória do homem, João Justiniano, através de Domingos de Afonseca e Azevedo, levanta o desbravamento da caatinga e a fundação da Aldeia de Rodelas a que se incorporam os homens brancos a ocupar as terras em nome de El-Rei e os padres capuchinhos que foram catequisar os índios, lá construíram a Capela e o  Cemitério.

     Cacimba Seca, ao reafirmar o talento de seu autor, impõe-se como obra definitiva, de profunda densidade humana e literária.


  Guido Guerra






Terra Inundada - Romance
Edição Contemp Editora - 1986  



          João Justiniano da Fonseca é um regionalista que não perde de vista o universal, seus dramas sertanejos têm muito de tragédia grega. A força criativa já revelada em !Cacimba Seca", seu primeiro Romance, confirma-se nessa "Terra Inundada" que me prendeu da primeira página à última. A morte cavalga o vento na caatinga condenada. Quem escapa de morrer de sede, nas secas prolongadas, é enxotado da terra pelas águas das grandes barragens construídas para saciar a fome de energia do desenvolvimento industrial. Antes do grande dilúvio promovido pela CHESF na região de Sobradinho, Santo Antonio da Glória foi afogada para que Paulo Afonso deixasse de gritar pelos engenheiros do Brasil, e a mãe de Cipriano das Flores Capivara fosse esconder sua desonra em São Paulo, onde se empregou como doméstica no palacete de um próspero jurista, onde seu filho cresceria e se faria homem, para um dia voltar ao rincão natal a fim de resgatar o seu passado.
          Há momentos verdadeiramente dostoiéviskianos nesse romance, que não é fruto da improvisação, mas resulta de acurada observação da realidade serteneja. Com "Terra Imundada" João Justiniano da Fonseca coloca-se entre os mais expressivos nomes do regionalismo baiano.


Wilson Lins






Grilagem - Romance
Edição Editora Sol Nascente – 1991



     Eu queria uma trilogia da terra. E aqui está ela concluída. Primeiro "CACIMBA SECA" - herói o vaqueiro. O vaqueiro, a caçimba, gado magro e a ração de macambira e mandacaru. Dureza de vida, crueldade de sofrimento. Segundo TERRA INUNDADA - herói o lavrador de beira rio no São Francisco. A CHESF construindo suas barragens, desalojando e abandonando o explorado ribeirinho. Crueza da vida, desespero a dor de ver tudo seu perdido.
     Agora GRILAGEM - herói o catingueiro tirador de mel e caçador de peba. Procura a abelha na caatinga de umburana em umburana. Caça o peba, o gato do mato, o veado, a asa-branca. Planta o seu roçado de quando chove, se chove. Cria meia dúzia de cabras e abelhas em dezenas de cortiços. Produz rústicos artefatos de madeira, couro e fibra de caroá. É auto-suficiente e produz até, para o consumo da casa, o sal da terra, a vela de cera e o sabão de decoada.
     Vem o grileiro. Os seus homens chegam e medem as terras. Léguas e léguas de chão devoluto do estado são passadas nos aparelhos de agrimensura e é sua a terra. Quem possui e trabalha o seu pedaço de chão no espaço medido, não importa há quanto tempo aí viva e sofra, é posto para fora como invasor. Pois sim, invasor. E o pior, o danado, é que o grileiro, por artes essas e aquelas de prova fraudulenta garante que é sua a propriedade e, para desocupá-la dos "invasores" tem o mandado da Justiça e o apoio da Polícia. Vida cão, só o diabo agüenta. O diabo por que mata e morre sem pensar em respeito a ninguém.


O Grileiro

     O grileiro eu conheço, é um criminoso impune, um gatuno de espécie a mais abjeta e ignara, que prova em seu favor e em seu favor reúne a polícia que ajuda e a justiça que ampara.
Chega e contempla a terra, e o rio, o rancho, a igara sem que suspeite alguém que ele morda e gatune, olha a cultura, ao dono o titulo repara a que lhe obriga a lei - a que ninguém é imune.
     Corre ao cartório, espia, arruma, retifica. Com o titulo na mão o registro pratica e eis que o direito é seu - é sua a propriedade.
     Vai ao juiz, requer. A polícia a mandado de reintegrar na posse o cidadão esbulhado. E cai o Pano... A cena a lei e a sociedade...


Joao Justiniano da Fonseca






Sonetos de Amor e Passatempo - Poesia
Edição Editora Sol Nascente – 1992



          Poeta e ficcionista, autor de uma biografia, três romances e quatro livros de poesia publicados, ganhador de vários prêmios em contos, aos 72 anos de idade João Justiniano mantém, inteira, a capacidade de sonhar.
          Tem-se como poeta mais que romancista e contista. Sente-se um homem plenamente realizado. Neste livro confirma-se como sonetista seguramente exercitado no manejo do verso métrico. São, aqui, mais de duzentas produções, destacando-se duas coroas sobre sínteses tomadas a outros poetas. 

Texto do editor




 
Aquele Homem - Romance
Edição Editora Sol Nascente - 1993 



          Saindo um pouco do regionalismo no qual se situa com os três romances editados e até a poesia (veja-se Brados do Sertao), Joao Justiniano da Fonseca agora nos traz AQUELE HOMEM, romance urbano de cores fortes, pendente para o erótico. Nas suas indagnações de autor voltado constantemente para a temática social, vai buscar o índio e o portugues no 1o de Maio de 1500 quando ficaram no Brasil dois degredados e dois marujos fugidos da nau cabralina. Partindo daí, chega a liberdade e a perversao sexual de hoje, passando inevitavelmente, tao forte é a temática, pelos caminhos de Eros.

Texto do editor






Rodelas, Curraleiros, Índios e Missionária - História
Edição Empresa Gráfica da Bahia com apoio da Secretaria da Cultura e Turismo da Bahia 1996



UM EXEMPLO DE BOA HISTÓRIA LOCAL 

          Quem examinar com atenção o mapa do estado da Bahia encontrará o nome de uma cidade na margem direita do Rio São Francisco, no trecho em que serve de limite entre a Bahia e Pernambuco. Naquele trecho o S. Francisco se alarga o suficiente para abraçar várias pequenas ilhas. A cidade em questão tem o nome de Rodelas. Na outra margem do rio ficam as localidades pernambucanas de Belém do S. Francisco e Itacuruba...
          ...O Livro de João Justiniano da Fonseca é exemplo de como do particular se pode partir para o geral. Representa uma valiosa contribuição para a própria reconstrução da história da Bahia, na medida em que reedifica uma se suas partes essenciais, que é a extensão aos sertões da colonização iniciada no litoral e ali singularmente adaptada em função dos fatores locais.

Jorge Calmom






Rio Grande do Sul - Poesia
Edição Empresa Gráfica da Bahia com apoio da Secretaria da Cultura e Turismo da Bahia 1997



          O livro é uma ode ao nosso estado, onde inúmeras mulheres são decantadas. De nós, sulistas, tu roubaste um pedacinho do coração. Cada uma de nós diferente da outra. Cada uma de nós com seus pendores, seus signos, suas cores e predileções. Umas das mais sensíveis, outras mais sensatas. Tem as apaixonadas, as cândidas, tem aquelas afoitas, outras mais recatadas, enfim, vários tipos, e essas mulheres foram conquistadas pela tua ternura, teu jeito de menino que fica translúcido na pele do homem bom, íntegro, inteligente, e de uma lisura impecável.


Hugo Ramirez






Sertão, Luz e Luzerna - Contos
Edição Empresa Gráfica da Bahia/Autor - 2000



         Quando o Jornal da Bahia, nos tempos de João Falcão, pontilhado na área de ficção a pena forra de Adionel Motta Maia, criou, sob sua coordenação o concurso permanente de contos, eu já tinha dois romances engavetados - Cacimba Seca e Terra Inundada, posteriormente editados. Nunca, entretanto, havia tentado o conto. Tinha-o por um gênero difícil, conto é o soneto da ficção, muitos podem produzi-lo, poucos o constroem razoável- mente.
          Agora este livro arrumado. Entram os contos de sertão. O dos 14 versos hugonianos, de Hugo Ramirez e poucos mais, as histórias iluminadas, inspiradas no extraordinário. É bom que os livros de contos, como os de poesia, não sejam volumosos. 


João Justiniano da Fonseca






Cantigas de Fuga ao Tédio - Poesia
Edição Empresa Gráfica da Bahia/Autor  - 2002



     Este livreto vem para marcar os meus oitenta e dois anos de sonhos e amor, de querer bem e, um pouco mais, dizer que estou em plena forma, lúcido e sadio, produzindo e ainda pesquisando. Os sonhos são os mesmos e estou contando com a boa vontade dos céus para alcançar os noventa com a mesma capacidade de trabalho, com a mesma disposição. Evidentemente sem o pique dos vinte e seis, antes, devagar e sempre.
     A cantiga é uma das mais belas manifestações da poesia em todos os tempos. "Canto porque o instante existe/ e minha vida está completa. / não sou alegre nem sou triste, / sou poeta", registra Cecília Meireles com uma simplicidade e uma ternura de criança. A poesia é a paz espiritual, é alegria, é felicidade.
     As Trovas, sonetilhas e haicais deste livreto se acumularam no tempo, um hoje, outro amanhã. Foram produzidas, as trovas, em regra para um encontro da UBT de Salvador, desde 1971, algumas vezes para concursos, aos quais, por sinal, fui pouco freqüente. Os haicais poucos, são um teste apenas. Nao fiz o hábito de seu cultivo. Em 1992, ao lançar Sonetos de Amor e Passatempo, eu anotava: "Deixo os poemas, sonetilhos e cantigas para outra oportunidade". Eis que chega a oportunidade das cantigas e dos sonetilhos. Estes, por sinal, não deixam de ser uma modalidade de cantiga - duas quadras e dois tercetos no ritmo redondilha maior, que é o da trova. 
     Só para dizer do valor espiritual, do bem que nos faz a poesia, do amor, da dedicação que lhe temos, os poetas, este bilhete do saudoso e querido Zélio Benevides, que me ensejou recuperar a pequena produção que não arquivara:


"Salvador, 14/10/1980.

Justiniano, irmão trovador:
     Tomei a deliberação de enviar-lhe uma cópia do seu soneto intitulado INÊS, feito quando se encontrava internado no hospital Português.
     Quando me Sobrar um Tempinho, irei vê-lo para conversarmos um pouco e falarmos de literatura, sobretudo de poesia, romance, conto.

   Zélio Benevides." 


 João Justiniano da Fonseca





 

Memórias de Pedro Malaca - Romance
Edição Empresa Gráfica da Bahia/Autor - 2003



DEDICATÓRIA

   Esta é uma história de gente e lixo, gente e bicho juntos no lixo - gente bicho. E eu desejo dedicá-la aos que são gente, isto é, aos que tem poder e comando. Poder e Comando de Estado, Poder e Comando de Dinheiro e Patrimônio, para que se precatem. A miséria está demais e a cultura universal, milenar, ensina que um dia os miseráveis se levantam e levam tudo, a tudo destroem na avalanche. Dá para sentir que a violência crescente no mundo inteiro, salvo a político-religiosa do Oriente - e ainda esta, é um pouco isso - tem muito de sua origem na fome e na miséria, que se espalham e se generalizam nas cidades grandes. Já César dizia: "Dai pão e circo ao povo". Vou condenar o deboche, para gritar aos modernos césares: Dai trabalho ao povo, que isto representa o pão, dai-lhe terra para a lavoura no campo, para o barraco na cidade, que
isto representa grão e abrigo.


I - ONDE TUDO COMEÇA

   Eu, Pedro Perpétuo do Espírito Jovem, vulgo Pedro Malaca, aos nove dias do mês de outubro de 1992, nos setenta e dois anos de idade. Pedro, por vontade de minha avó, homenagem ao seu ajudante de pedreiro que aos vinte e nove anos, por disposição secreta do chaveiro do céu, comandando lá de cima as coisas de cá, despencou do décimo andar do edifício onde trabalhava, sem seguro, sem previdência, sem coisa nenhuma, deixando-a desamparada. Perpétuo do Espírito Jovem, para gozo de minha mãe, que achava bonito o Perpétuo e sendo Espírito Santo, no último momento refletiu que Santo é nome de negro e o seu filho, eu, havia nascido quase branco, ou quase branco ela me supunha. Daí que mudou para este incomum Espírito Jovem. Na idade em que me encontro, o nome passa a ser simpático e até me inspira autoconfiança; na mocidade eu não dava importância a isso, era o meu nome e me bastava. O Malaca vem da infância de rua e me pegou a vida inteira, porque me agrada e eu o declino com satisfação. Nasceu na molecagem, não está no registro. No dicionário também não está, eu olhei, mas, na língua do povo, tem o mesmo sentido de peteleco, isto é, dedada na orelha do menino quando o companheiro o surpreende descuidado. E, se não dá briga na hora, deixa o certo desejo de cobrança: - tu me pagas, cabra! No seu próximo descuido é a hora, malaca nele. Pois bem, porque eu tenho as orelhas grandes - e isto é bom, uma vez que segundo o dito popular representa longevidade -, o pessoal me pegava mais vezes. Acabei ficando Pedro Malaca. Gosto do nome, tenho-o como um bom apelido. Essas coisas de criança são assim, a gente lembra como se fossem de ontem. Parece que me vejo, neste instante mesmo, no bonde misto do Retiro: gente, porco, galinha, carga de toda diversidade, eu, mamãe, meus pequenos irmãos, nossas trouxas de roupa. E onde está hoje o bonde misto, no qual o pobre tinha um preço mais baixo e podia transportar os seus animais destinados a venda na feira livre, e os seus badulaques? Adeus bonde misto, largas portas sempre abertas, sem bancos, todo mundo em pé
agarrado nas alças lá em cima ou nas paredes, as crianças presas as pernas
mais próximas. Adeus bonde, que já não existes mais e bem podias estar servindo de transporte de massa, não poluente e a preço muito inferior ao dos maltratados ônibus que expelem óxido de carbono de uma ponta a outra da cidade e dão mais greve que circulação, sem contar que não há misto. Adeus trem da Leste Brasileiro, começando da Calçada aos subúrbios para continuar sertão adentro pelas caatingas até Juazeiro, estrada tantas vezes percorrida por mim na mocidade, máquina fotográfica a tiracolo, alguns livros debaixo do braço e muita paixão pela vida, muita vontade de ser e de viver.
   Lá vai o trem pelos caminhos do agreste sertanejo, "roque-roque, foque-foque, - eu-chego-já, eu-chego-já, pode-esperá, eu-chego-já". Gente sentada, gente em pé, mais em pé do que sentada, adultos e crianças, homens e mulheres. Os homens fumam e conversam, conversam e fumam, cada qual falando mais alto para sobrepor  a voz ao ruído das rodas nos trilhos, "roque- roque, foque-foque" e ao vozerio vizinho. A paisagem, um ambiente só, imutável, permanente: árvores secas, folhas no chão, aqui, ali, uma rês esquelética, mostrando  os ossos por dentro do couro ressequido, adiante um esqueleto de animal, os urubus rondando, bicando o que ainda se preste ao seu apetite.
O restaurante. Aqui, os de melhor situação, caixeiros viajantes (a maioria são representantes de laboratórios, deve ser um negócio bom e rendoso, vender remédio, cuja matéria prima por excelência é água destilada), empregados públicos,   fazendeiros, comerciantes. Também aqui  os passageiros fumam. Muito. Mais até  que nas classes, e bebem cerveja.  Intoxicam fartamente os pulmões,   engolindo poeira de chão e poeira de cigarro, benza-os Deus. Falam aos   gritos e todos ao mesmo tempo praticamente as mesmas coisas em todas as rodas: É a seca que mata os animais e acaba com tudo, são os negócios parados, os comerciantes sem dinheiro para saldar os compromissos, porque as pessoas falta dinheiro para comprar. Não há o produto local a vender - o boi, o bode, o algodão, o feijão. Mais se fala, mais se entristece; mais se entristece, mais se bebe; mais se bebe, mais se fuma; mais se fuma mais se intoxica; mais se intoxica, mais encurta-se a vida. E o trem sem parar: - "pode-esperá, eu-chego-já. Eu-chego-já, eu-chego-já". De vez em quando o comboio vê, na sua corrida, e rápido deixa para trás, uma família de retirantes. Trouxa na cabeça, uma criança no colo andam os mais jovens, meninos quase arrastados pelo braço, gemendo e chorando, os velhos capengando, a miséria estampada em cada rosto. São os que fogem da seca, mudando-se sem saber para onde, pela frente sempre a mesma penúria. Dói-me a paisagem, dói-me o estirão de miseráveis na estrada,   dói-me a minha própria solidão. Como que  me vejo entre aquela gente, moído de  miséria, comendo lixo como foi algumas  vezes no meu tempo de menino. Sem  dúvida, em um magote de desgraçados  igual aqueles, teria descido o célebre Gaguinho de minha mãe. Sem dúvida! Medito sobre uma reportagem enfocando a desgraça sertaneja e vejo-a descrita em matérias anteriores. Seria uma repetição de outras repetições, trabalhadas no correr de uma vida, para leitura de poucos e desinteresse de quantos tem os meios de solucionar, ou ao menos, amenizar toda aquela miséria secular.  Procuro ler. O sacolejar do trem reduz a capacidade de leitura. Ora as letras parece que pulam com o trem, ora a vista se desloca mais para cima ou mais para
baixo, desisto da leitura. Não sou de muita conversa nem de muitos amigos, costumo viajar horas e horas silencioso e pensativo. Meu assunto se isola dos mais, sou o único profissional de imprensa. Cansado fecho os olhos, tento dormir. Não consigo. O pensamento corre como as rodas da viatura sobre os trilhos, só o compasso é diferente e eu não consigo ordená-lo. Canta um poema? Nem isso! Até então, não tinha inclinação para a poesia. Jamais arrumara dois versos. Conta uma história? Conta muitas histórias, mas sem ritmo, sem sentido, embaraçadas, recheadas de dúvidas e temores, de dores e tristezas. Era uma vez um menino que nasceu para ser pivete e uma alma santa o conduziu nos caminhos do bem, ensinou a viver como gente, enquanto milhares de outros lá ficaram para se fazerem bandidos ou mendigos... Era uma vez uma menina triste que viveu no lixão da Canabrava, de onde saiu por graça de um menino levado da breca, para ser lavadeira... Era uma vez uma pobre mulher sem profissão ou ocupação rendosa, que perdeu o marido num acidente de trabalho no qual era um simples avulso, anônimo, sem fichamento e até sem folha de salário, e assim, sem amparo legal... Era uma vez um amontoado de bichos e gente, urubus e cachorros vadios, jumentos velhos, crianças e anciões vivendo do lixo, uns morrendo hoje, outros esperando sua vez amanha ou depois, logo mais, uns chegando outros saindo, as centenas, depois aos milhares,  já agora sempre chegando e não saindo  ninguém, senão no Rabecão, para a vala do cemitério das Quintas, onde o  chão os engolia sem nome... Era uma  vez, era uma vez, era uma vez...

   Enfim, na estação da Calçada, na cidade para o compromisso mais doloroso dos meus 72 anos de vida. Pegar um táxi rumo ao cemitério, correr, que o tempo se esgotava...


João Justiniano da Fonseca 





 

Crônica dos Deuses - Romance
Edição Empresa Gráfica da Bahia/Autor - 2005



  Um projeto antigo

          De muitos anos, de moço, pensava em algum trabalho em cima do Antigo Testamento. A idéia nasceu, lá um dia, em momento de leitura bíblica. Caí, por acaso, na história de Jacó. Cheguei a Jacó e Labão, ao pastoreio, a Raquel e Lia. Despertei para o fato de que Camões não foi, para o seu soneto célebre, ao fim do texto bíblico. E compus o soneto



ASTÚCIA DE JACÓ

Sete anos por Raquel e sete mais por Lia,
de quebra, em cada leito uma franzina escrava,
assim viveu Jacó, e muito bem vivia,
na casa de Labão, de quem pastoreava.

Porque vivia bem e ainda melhor servia,
seis anos mais ficou - e tempo lhe sobrava.
O que era branco e preto, a Labão pertencia,
sendo o malhado seu, e o resto que pintava.

Mas, por astúcias tais, que ninguém entendia,
os rebanhos malhava, e pintava, e malhava,
até que branco e preto em pouco não nascia.

Labão que tudo olhava e já o seu não via,
os rebanhos contava, e contava, e contava...
Era tudo malhado, a Jacó pertencia!



          O grilo permaneceu na mente e no correr do tempo produzi outros sonetos sobre a temática. Quando li Saramago no seu Evangelho Segundo Jesus Cristo, aí ocorreu a idéia do romance. Poderia passear pelo Antigo Testamento e ou pelo Novo. Percorri personagens, quis Pedro, não encontrei muito ou a inspiração não me ajudou - Pedro continua ainda em minha cabeça e não duvido que saia algum dia, sou um homem que acredita na eternidade e a espera tranqüilamente - . Com Pedro viriam os discípulos, talvez Judas também - o coitado em quem o destino pôs a pecha e a forca. Sim, o destino, um tinha de ser, foi Judas o escalado.
          Ocorreram-me os profetas e o melhor que se introduziu foi Moisés, eu o acolhi, ainda que badalado demais, usado e ré-usado. É assim mesmo, cada qual faça a sua parte. Aqui, Moisés fundamentalmente não é muito, preferi o conjunto e partindo do personagem central voltei a Abraão, passei por Jacó - o Israel homem, retornei a Moisés até chegar a Israel povo, ao Êxodo, sem deixar de rever Adão e Eva, a serpente, o fruto proibido. Acabei descobrindo que o fruto não foi a maça, mas a uva, a uva fermentada, feita no saboroso vinho, manso e embriagador. A embriaguez tudo pode.
          Mas não esqueci nem poderia esquecer o Deus Criador produzindo a grande poesia que é o Seu mundo, aliás, que são os Seus mundos. Caim e Abel, Noé, entraram de quebra. Quase todo o mundo bíblico.


João Justiniano da Fonseca







A Vida de Luiz Viana Filho - Biografia
Edição Conselho Editorial do Senado Federal -  2005



A PALAVRA DOS MESTRES

          "Luiz Viana Filho é, por si, um título de glória para o nosso país", diz Austregésilo de Athayde. E Josué Montello o chama de "o mais polido de seus contemporâneos, o mais civilizado dos brasileiros. Íntegro. Superior. Obra-prima do bom gosto de Deus". "Toda vez que o Brasil conjugar o estilo da lhaneza com o sentido da grandeza, o alto vulto de Luiz Viana Filho sorrirá para nós, lá do Senado das sombras", registra Guilherme Merquior .

I - O CONSELHEIRO LUIZ VIANA

          O Conselheiro Luiz Viana destacou-se como político, chefe do Partido Liberal na Bahia, no final do Segundo Império e nas duas primeiras décadas da República. Foi Conselheiro e Presidente do Tribunal de Apelação e Revista, situação correspondente, hoje, a desembargador, e Presidente do Tribunal de Justiça do Estado, professor da Faculdade de Direito da Bahia, hoje integrada a UFBA, sendo um dos seus fundadores, Senador do Estado e Presidente do Senado Estadual, Governador do Estado da Bahia, Senador Federal. Assumiu o governo do estado a 28 de maio de 1896, deixando-o no final do mandato, em 28 de maio de 1900. No governo, fundou a Escola Politécnica, também integrada a UFBA, ampliou as instalações da Escola Normal, criou condições para a ampliação das usinas de açúcar - enato base da economia do estado -, determinou a construção de açudes nas regiões mais castigadas pela seca de 1888/89. Antes de eleito governador, fora candidato a Intendente da Cidade de Salvador, sendo vencido por José Eduardo Freire de Carvalho Filho.
          Filho do coronel José Manoel Viana, fazendeiro e comerciante na região, e dona Mariana Ribeiro Viana, nasceu em Casa Nova, antiga São José de Casa Nova, pequena cidade baiana do lado norte do Rio São Francisco, pouco acima de Juazeiro, de onde recebe o reflexo sociocultural e econômico desde os primórdios - no ano de 1846, no dia 30 de outubro. Faleceu a 6 de julho de 1920 a bordo do paquete holandês Limburgia, nas proximidades de Las Palmas, sendo o corpo embalsamado e transladado para Lisboa, depois Salvador, onde foi sepultado no dia 1° de agosto. Deixou o filho Luiz Viana Filho, do segundo casal, com dona Joana Gertrudes Fichtner Viana, enato aos 12 anos de idade e a quem dera o nome de Henrique Luiz Viana. Gabriel Viana apresenta-se como filho: "Ao nosso sempre lembrado pai saudades eternas de Gabriel e Amanda", registra a coroa de flores dedicada por estes ao falecido. Amanda era a esposa de Gabriel. Fica a dúvida. Luiz Rogério de Souza, amigo de Luiz Viana Filho, com quem convivera proximamente, dizia que ele tinha uns irmãos pretos (falava no plural). Gabriel é lembrado no testamento do Conselheiro, que declara que o criou e educou, deixando-lhe o valor de vinte contos de réis em apólices do Estado da Bahia. Ingressando no processo de inventário com um requerimento em que denuncia que a inventariante está desviando para outras propriedades gado seu, com a marca a fogo G, que criava em uma das fazendas do falecido, autorizado por ele, Gabriel alega que provará ser seu filho, por via de uma investigação de paternidade a que está procedendo. Até o fim do processo não apresentou essa prova nem a do reclamado desvio de gado, não participando, assim, do inventário. Pode ser que Gabriel fosse realmente seu filho.
          Casa Nova, ao tempo do nascimento do Conselheiro, devia ser um pequeno povoado rural, ligado a Juazeiro, que, por sua vez se subordinava a Sento Sé, que seria também muito pouco. Tudo isso, esteve na zona de influencia do Sobradinho, do célebre Domingos Sertão, três séculos atrás. A atual cidade de Juazeiro, enato, chamava-se Passagem do Juazeiro.
          José Manoel Viana faleceu a 7 de janeiro de 1911, tendo a alegria de ver o filho governador do estado. Era filho, José Manoel Viana, de um Senhor Viana, português, fundador de Casa Nova.
          Tão pouco era Sento Sé em 1846, que tendo sido criada aí uma comarca em 1835, vinte e dois anos depois, em 1857 (tinha onze anos o Conselheiro Luís Viana), foi a mesma transferida para a povoação de Juazeiro, que alcançou maior desenvolvimento.
          Com efeito, uma lei de 21 de maio de 1835 cria a "Comarca de Sento Sé, compreendendo as vilas de Juazeiro e Pambu, desmembrada de Jacobina". Outra, de 14 de dezembro de 1857, define: a Comarca "de Sento Sé que se chamará Juazeiro, constará de três termos - Capim Grosso, Juazeiro e Sento Sé". Aqui aparece mudado o nome de vila de Pambu para Capim Grosso, atual Curaçá, porque também esse termo já mudara de endereço, isto é, desenvolvendo-se Capim Grosso mais do que Pambu, fora transferida a categoria de vila, de um lugar para o outro, indo, na transferencia também o Julgado - ou Termo Judiciário, em decorrência da lei de 6 de junho de 1853 (2).


II - INFÂNCIA, ADOLESCENCIA, PRIMEIRA MOCIDADE 

           Iniciava-se a primavera em Paris e "a cidade cinzenta já começava a trocar de roupa", diria Luiz Navarro de Brito, isto é, começava a enflorar-se, e os pintores certamente trabalhavam suas telas na via pública, como era costume; as luzes noturnas brilhavam, os teatros enchiam-se. Paris seria uma cidade de 2.500.000 habitantes, não mais. Era o dia 28 de março do ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1908. Nascia o filho único do Conselheiro Luiz Viana e da senhora Joana Gertrudes Fichtner Viana, que receberia o nome de Henrique Luiz Viana. Aos dois anos de idade tomava porto na Bahia, o "doce ninho murmuroso" de Rui Barbosa, o chão do Barão de Cotegipe e do Visconde do Rio Branco, que seria a sua verdadeira terra, aquela onde viveria a infância e a adolescência, a mocidade, a vida inteira, onde se encaminharia para o futuro, onde brilharia e seria acatado e respeitado como cidadão e político, como intelectual, ampliando, a partir daí, o seu círculo de amizades e afeto, de respeito e admiração para todos os rincões da pátria. O pai, líder político, depois de exercer a governança do estado não se candidatou a nenhum outro cargo e, assim, teve uma fase de ostracismo. Sendo um homem de posses e boas rendas, viveu essa temporada em Paris, onde conheceu dona Joana. Nascido o herdeiro pelo qual sem dúvida ansiava, tratou de retornar a terra natal e retomar a atividade política e o comando partidário. Elegeu-se senador da república. Como senador, em um tempo em que não havia o avião do vai-e-vem, residiu no Rio e aí levou o filho a escola. Como informa Navarro de Brito, esteve, este, inicialmente em uma escola pública em Botafogo, passando a seguir para o Colégio Anchieta e mais tarde para o Aldridge, depois para o Externato Burlamarque de Moura como aluno interno. Após o falecimento do pai, no Rio ele continuaria ainda por algum tempo, interno no Burlamarque Moura, enquanto a mãe se fixava na Bahia certamente pela conveniência de administrar os bens deixados pelo falecido esposo e cuidar do inventário. Veio logo mais para Salvador onde realizou, no Colégio da Bahia, os exames indispensáveis a matrícula no vestibular, que iniciara no Pedro II, Rio de Janeiro. Nos exames realizados no Pedro II, ele se destacaria com distinção, nota 10 em História do Brasil, História Universal, Corografia e Geografia.
          Nascido em Paris, distrito de Louvre e Oiase, Henrique Luiz Viana, foi registrado no Cartório da Jurisdição Civil local. Só em 1926 teria o seu registro baiano, que se deu no Cartório da Sé. Era, não o registro de nascimento, que não poderia ser feito no Brasil existindo um outro, anterior, em França, mas o registro de emancipação, já aí com o nome de Luiz Viana Filho.
          Dá-se que, ao completar 18 anos de idade, acadêmico de direito cursando o segundo ano e exercendo, havia dois anos, a profissão de jornalista, sentindo-se apto para todos os atos da vida civil, requer, tendo como procurador Aliomar Baleeiro, a emancipação, para que possa administrar seus próprios bens, até enato gerenciados por sua mãe. O juiz requerido acolhe o pleito e manda que se proceda ao registro. Aí se declara que Luiz Viana Filho não tem registro de nascimento em nenhum Cartório de Salvador. A anotação se encontra no livro 17, as folhas 19, do Cartório da Sé: "Aos dois dias do mês de junho de mil novecentos e vinte e seis neste Distrito da Sé em meu Cartório, compareceu o Doutor Aliomar Baleeiro, advogado, natural deste Estado, residente a rua Areal de Baixo, número quinze, como representante do acadêmico de direito Luiz Viana Filho, exibindo uma certidão de sentença passada pelo Exmo. Sr Dr. Juiz de Direito da Vara de Órfãos e Ausentes, para ser registrada na forma do artigo 12 de referencia art. 09, n° 01 ambos do Código Civil Brasileiro, cujo teor é o seguinte: Sentença. Vistos etc. Verificando que o Sr. Luiz Viana Filho tem idade completa de dezoito anos e possui capacidade necessária para reger a sua pessoa e bens, declaro-o emancipado e apto para todos os atos da vida civil, sendo-lhe entregues os bens e movimentos, pagar as custas. Sejam estes autos apensos aos do inventário do Conselheiro Luiz Viana, seis de maio de mil novecentos e vinte e seis, assinado João Gonçalves Moniz. Nada mais se contém nem declaro no teor da sentença que bem afirmados a qual me reporto e dou fé. Esta certidão vai por mim escrevente juramentado escrita e pelo escrivão Carlos da Rocha Reis rubricada, subscrita e por outro escrivão conferida e acertada nesta Cidade do Salvador Capital do Estado da Bahia aos dois de junho de mil novecentos e vinte e seis. Eu Francisco Xaves Nunes da Silva, escrevente juramentado a escrevi. Eu Carlos da Rocha Reis escrivão a subscrevi e assino. Carlos da Rocha Reis. E para constar faço este termo tendo o representante mencionado Aliomar Baleeiro declarado mais que fazia este registro no Cartório da Sé desta Capital por ser a sede da Cidade e o Sr. Luiz Viana Filho nascido na França, na cidade de Paris não tem registro de nascimento em nenhum Cartório de Oficial de Registro Civil desta cidade, que depois de lido por mim e achado conforme vai pelo seu representante assinado. Eu Joaquim Pinto dos Santos escrevo e assino. Joaquim Pinto dos Santos, Aliomar Baleeiro, Luiz Viana Filho. Anotação aos dezenove dias do mês de abril de mil novecentos e cinqüenta, neste Subdistrito da Sé em meu Cartório presente o mandado expedido pelo Dr. Almiro dos Reis Meireles Pretor, na Jurisdição Plena da 2a Civil faço a presente anotação a margem do termo do registro de emancipação do Dr. Luiz Viana Filho para que fique constando como parte integrante do mesmo termo, que o emancipado nasceu no dia vinte e oito de março de mil novecentos e oito. E para constar faço este termo. Eu Maria da Glória Martins Bonfim, escrivã escrevi e  dou fé. Maria das Graças Martins Bonfim". Não obstante a determinação de que os autos fossem juntos aos do inventário do conselheiro Luiz Viana, a anexação não se deu.
          No ano anterior, antes de inscrever-se no exame vestibular a Faculdade de Direito, havia feito a alteração do nome, publicando-a no "Diário Oficial do Estado" de 28 de março, data em que completava 17 anos. Eis:
          "Declaração. Henrique Luiz Viana, filho do Conselheiro Luiz Viana, declara para todos os efeitos que desta data em diante passa a assinar-se Luiz Viana Filho. Bahia, 24 de março de 1925" (assinado Luiz Viana Filho) (1).
          A alteração nominal, era alguma coisa como uma confirmação. Com efeito. Henrique Luiz Viana vinha a significar Henrique, filho de Luiz Viana. Ele preferiu, com muita razão e bom senso, Luiz Viana Filho. Fixava-se aí o nome da pessoa humana simples e bondosa, do cavalheiro de trato ameno e nobre; do intelectual brilhante, membro da Academia de Letras da Bahia, da Academia Brasileira de Letras, da Academia de Ciências e Letras de Lisboa, da Academia Internacional de Cultura Portuguesa, do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, príncipe dos biógrafos brasileiros; do político que se destacaria como governador de seu estado, ministro, deputado federal, senador da república, presidente do Congresso Nacional.
          Feita a alteração do nome, agora é a preocupação do jovem, muito natural, com a nacionalidade brasileira. Filho de pai brasileiro magistrado, professor e político que exercera o cargo de governador do Estado, tendo nascido em país estrangeiro, mas aportado na Bahia aos dois anos de idade para ficar em definitivo - brasileiro, baiano se sentia e desejava ser, não francês, e o seria da mais alta representatividade, e com grandes serviços prestados no correr de toda a vida. Prova daquele desejo é que ao requerer matrícula na faculdade de direito, como brasileiro se qualifica:
          "Luiz Viana Filho, brasileiro com 17 anos de idade, solteiro, filho de Luiz Viana, tendo sido habilitado no exame vestibular prestado nesta Faculdade e querendo matricular-se no 1° ano, vem pedir a V. S. que se digne mandar incluí-lo na lista dos matriculados do referido ano".
          Na primeira página do prontuário do Professor Luiz Viana Filho, lá está a confirmação de sua assumida nacionalidade brasileira: "Nascido em 28 de março de 1908 em Paris (Brasileiro)"(1). Ele era a Bahia, diria Nelson Carneiro, 65 anos depois, enquanto velava seu corpo no Palácio da Aclamação. De fato. São muitas as oportunidades em que defende com entusiasmo e dedicação a Bahia, luta por ela e suas causas. São muitos os momentos em que, com amor e carinho se manifesta sobre sua terra. Veja-se esta sua transcrição (A Tarde - 23/12/43): "Realmente, como se os bons fados se esmerassem em preparar para a Bahia os filhos que lhe valeriam o epíteto de Virgínia Brasileira, é curioso observar a prodigalidade com que demos ao país nomes e vultos dos mais eminentes, quer na política, quer nas letras. Aqui nasceriam os dois Ferreira França e os dois Rebouças. E, da fase da Independência, são os nomes de Abrantes, Montezuma, e Jequitinhonha. Depois, seguem-se Rio Branco, Nabuco de Araújo, Cotegipe, Saraiva, Dantas, Ferraz, Junqueira e Zacarias. E cada qual seria bastante, por si só, para marcar, com um clarão de inteligência, de talento e de capacidade a sua época. Por isso mesmo o Império é a fase dos estadistas baianos. E não convém esquecer que é o período mais brilhante da nossa História. Contudo, não é apenas na política que se assinala essa grande geração de baianos - nas letras, é daqui que sai Castro Alves". Também ele honraria a sua Bahia, quer na política, quer nas letras. E buscava os momentos mais solenes de sua vida para manifestar-lhe seu amor e declarar seu orgulho de ser baiano: "... para me estimular e ajudar, sempre contei com aquela que jamais falta aos seus filhos, nos esforços da inteligência - a Bahia. A Bahia, fonte de toda a minha inspiração", diria, vibrando, em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras.
          Desembarcado em Salvador aos dois anos de idade, só voltaria a terra de nascimento aos 49 anos. Era o ano de 1957. Foi a uma conferencia interparlamentar em Nice, quando aproveitou para conhecer Paris, onde seu filho Luiz Viana Neto fazia o doutorado em Direito Internacional; é este que oferece a informação.



João Justiniano da Fonseca





Outras Obras (em construção)





Luiz Viana Filho – O Jornalista - Antologia
 Conselho Editorial do Senado Federal - 2008 



Memorial Dulcina Cruz Lima - História
 
Edição Empresa Gráfica da Bahia/Autor - 2008 



A Colonização e o Massacre -Romance Histórico
 
Edição Empresa Gráfica da Bahia/Autor - 2009 



No Correr do Tempo - Memórias
 Edição Empresa Gráfica da Bahia/Autor - 2011 



Dulcina Cruz Lima - Correspondência - Coletânea de Cartas e Outros Escritos
 
Edição Empresa Gráfica da Bahia/Autor - 2013 



Participação em inúmeras coletâneas impressas de poesias e contos